Berlinale 2026 entra na primeira semana de exibição reunindo filmes autorais de mais de 70 países

O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, chega à edição de 2026 com uma programação marcada por obras de forte caráter histórico e social. Um dos eventos de cinema mais importantes da Europa, o festival, que começou no último dia 12, segue até 22 de fevereiro com mais de 400 filmes na programação, distribuídas em diversas seções e mostras especiais. Neste ano, o júri internacional é presidido pelo cineasta alemão Wim Wenders.

Na competição principal, 22 filmes disputam o Urso de Ouro e o Urso de Prata, muitos deles abordando temas contemporâneos. Entre os destaques estão: “Rosebush pruning”, novo trabalho de Karim Aïnouz, coprodução entre Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha, com elenco estrelado por Callum Turner, Tracy Letts,Riley Keough, Jamie Bell, Elle Fanning e Pamela Anderson; “At the sea”, do húngaro Kornél Mundruczó, com Amy Adams; “Rose”, drama de época austríaco estrelado por Sandra Hüller; e “Nightborn”, drama com elementos de terror corporal protagonizado por Rupert Grint. Fundada em 1951, a Berlinale consolidou-se como um dos três grandes festivais europeus, ao lado de Cannes e Veneza. Desde 2000, seu principal palco de exibições e recepções é o Theatre am Potsdamer Platz, conhecido como Berlinale Palast. As exibições ocorrem em diversos cinemas da capital alemã, como o Cubix Cine Star, na praça Alexanderplatz, Cinemaxx e Bluemax Theater, ambos na Potsdamer Platz, Uber Eats Music Hall, Urania e Zoo Palast. Ingressos e informações pelo site oficial do festival, em https://www.berlinale.de/en/home.html.

Confira abaixo comentários de filmes que conferi na Berlinale 2026:

 

Everybody digs Bill Evans

(EUA, Irlanda e Reino Unido - 2026, 102 minutos, de Grant Gee)

Em première mundial na Berlinale, concorre ao Urso de Ouro este drama rodado em preto-e-branco que biografa uma pequena parte da vida do pianista norte-americano Bill Evans (1929-1980), focando em quatro pontos entre 1961 e 1973: o relacionamento amoroso conflitante com a primeira esposa, Ellaine Schultz, que cometeu suicídio, a produção de seu disco mais famoso (que dá título ao filme), o retorno para a casa dos pais, na Flórida, e o vício em heroína. O ator norueguês Anders Danielsen Lie (de “Oslo, 31 de agosto”) performa bem como o melancólico pianista, que era referência no jazz, mas que vivia sob efeitos de sedativos e drogas, chegando a dormir na mesa durante as refeições. Lie tem em uma interpretação tácita, de poucas palavras, um cara introspectivo, inseguro e limitado no amor – o filme se concentra nos momentos de silêncio do personagem, quando não está tocando ou gravando, ou seja, em seu momento íntimo. Solitário, ele aguarda a entrega do seu segundo álbum, cujo atraso da gravadora o perturba; ele tem um romance de altos e baixos com Ellaine Schultz, uma namorada quase noiva, que logo comete suicídio, o que o abalará profundamente. Recorre à heroína injetável para suportar o luto e as decepções. Um tanto quanto pessimista, o filme evita sublimar o personagem, buscando exibir seu lado frágil, às vezes decadente. A fotografia em penumbras, com sombras fortes projetando a silhueta de Evans nas paredes, é uma opção forte de estética, que foge da convencionalidade. O único momento de descontração, que torna momentos do filme mais leve, está na aparição dos pais de Evans, interpretados brilhantemente por Bill Pullman e Laurie Metcalf – o casal está formidável, Pullman como um idoso reclamão, e Laurie como a mãe de origem russa, engraçada e ao mesmo tempo atenta aos vícios do filho. Destaque para Bill Pullman, num de seus trabalhos mais humanos, que raramente o vemos desempenhar com tamanha dignidade no cinema. Há escolhas interessantes de montagem: o filme se passa essencialmente em 1961, num PB sagaz, mas há flashforwards (passagens para o tempo futuro) coloridos com tons estourados, de 1973 e 1980 (este sobre a morte prematura do pianista), provocando uma dinâmica especial para a composição das imagens. Quem assina o filme é o diretor inglês Grant Gee, um conhecedor do mundo da música, já indicado ao Grammy e que fez clipes nos anos 90 de Radiohead.

 

Rose

(Áustria e Alemanha - 2026, 94 minutos, de Markus Schleinzer)

“Rose” integra a competição oficial da Berlinale 2026 e é forte candidata ao Urso de Ouro. A fita de arte de altíssimo impacto visual marca o retorno de Markus Schleinzer, diretor de “Angelo” (2018), num trabalho difícil de ser realizado e que tem tudo para render a Sandra Hüller o prêmio de melhor atriz no festival: ela está extraordinária, em uma performance de precisão emocional. A fotografia em preto-e-branco de Gerald Kerkletz é arrebatadora com seus contrastes duros e texturas quase táteis, que dá ao longa uma aura de fábula sombria. Trata-se de um folk tale inspirado em um provável caso real, de uma mulher do início do século XVII que utiliza a identidade de um homem morto para ser aceita em uma sociedade regida pela religião. A história se passa em algum lugar longínquo da Alemanha. Rose é uma desconhecida que chega a um vilarejo protestante e se identifica como um soldado recém-saído da guerra. Com uma queimadura no rosto e uma cicatriz profunda na bochecha (marcas daquela guerra), ela apresenta aos moradores de lá documentos que indicam a herança de um lote de terra abandonado. Rose se instala numa casa na floresta, e naquele pedaço de chão tido como seu, passa a plantar e colher, sendo aceita pelos aldeões. Até que é forçada a se casar; para tanto, apresentam para ela uma mulher vinda de uma cidade vizinha. Sandra Hüller tem uma força de expressão indescritível, traz carga dramática, sentimento no olhar e na delicadeza dos gestos para levar nas costas uma história sobre construção de identidade e combate à intolerância, de uma mulher solitária que tem de se esconder para ser aceita, desde mudar o nome até usar roupas apertadas para apagar os traços de mulher. Schleinzer transforma essa premissa histórica em um estudo sobre moralidade, patriarcado e violência estrutural, sem abrir mão de uma mise-en-scène rigorosa e de um olhar profundamente humano. Sublime na forma, a plasticidade da paisagem salta da tela, verdadeiros quadros fotogênicos. As locações são do Vale de Glasebach (Glasebachtal), localizado no estado alemão da Saxônia-Anhalt. Deve ser finalista do Oscar do próximo ano na categoria de filme estrangeiro, atriz e fotografia.

 

Fiz um foguete imaginando que você vinha

(Brasil - 2026, 92 minutos, de Janaina Marques)

Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros.

 

Nightborn

(Finlândia/França/Reino Unido/Lituânia - 2026, 92 minutos, de Hanna Bergholm)

E eis que na Berlinale aparece um body horror com bebê monstro para discutir o papel de mãe em uma sociedade patriarcal, recorrendo a um humor (bem estranho) para amenizar o gore que respinga na tela. É um filme finlandês que se passa inteiramente em uma casa localizada nas adjacências de um bosque, onde mora o casal Saga (Seidi Haarla) e Jon (Rupert Grint). No lar cercado por árvores, onde Saga passou a infância, nasce o bebê deles. Mas desde o parto percebem que ali não existe uma criança igual às outras: o recém-nascido tem pelos por todo o corpo e unhas afiadas. Na amamentação, Saga fica machucada, de seu peito escorre sangue, e na hora de dormir, o bebê a deixa com hematomas no braço de tanto que a aperta. Inquieta, a mãe não consegue dialogar com o marido (sobre nenhum assunto), ambos brigam, e Jon fica mais distante. Resta a Saga cuidar sozinha daquele estranho filho, que passa a ter comportamentos fora do comum. Enquanto o pai não vê nada de errado ali, Saga trava uma batalha contra uma verdade que a assombra, iniciando conflitos com outros familiares, como a mãe controladora. O longa trata da pressão da maternidade e da depressão pós-parto, focando em uma mulher que vai enlouquecendo por não conseguir cuidar do filho recém-nascido. A sociedade exige dela a figura de mãe exemplar, forçada a exercer um papel que a sobrecarrega a ponto de viver apenas para a criança (o trabalho da atriz finlandesa Seidi Haarla, de “Compartimento número 6”, é afiadíssimo, com momentos de tensão, humor e dor). O terror corporal na figura da criança com traços animalescos (em determinado momento o nenezinho só se alimenta de carne crua desenvolvendo um instinto primitivo que o faz se comunicar com a natureza) dá ao filme a dimensão de fantasia e horror como uma fábula. A criança nunca aparece, só a vemos de lado e de costas no colo da mãe, instigando a curiosidade de quem assiste. No passado, filmes com recém-nascidos malditos já levantava questões sobre o desalento da maternidade, como “O bebê de Rosemary”, sendo este “Nightborn” um esperto derivado que serve para uma reflexão sobre o tema. O filme está na competição da Berlinale concorrendo ao Urso de Ouro.

Autor

Felipe Brida
Jornalista e Crítico de Cinema. Professor de Comunicação e Artes no Imes, Fatec e Senac Catanduva