Aprovação em dois cliques e dívida eterna
Hoje em dia, conseguir um cartão de crédito é mais fácil do que pedir um cafezinho. Você espirra, abre um aplicativo, pisca o olho — aprovado. Limite generoso, sorriso digital, confete virtual. A fintech te chama pelo nome, diz que confia em você. Confia tanto que não quer saber se você já deve até a alma no SPC.
O resultado está aí, escancarado como placar de goleada: quase 84% dos negativados são reincidentes. Gente que já caiu, levantou torto e caiu de novo. Em média, dois meses e meio depois de uma dívida vencida, outra já estoura. Não é azar. É sistema.
Criamos um país onde o crédito é instantâneo e a responsabilidade é opcional. Onde o cartão chega antes do juízo. Onde o consumo é tratado como direito sagrado e a inadimplência vira estatística fria, dessas que ninguém assume no discurso, mas todo mundo ajuda a produzir na prática.
As fintechs adoram falar em “democratização do crédito”. Democracia estranha essa: voto fácil, cobrança impiedosa e juros que fariam um agiota corar de vergonha. Não há análise séria, não há freio, não há constrangimento. O algoritmo não tem consciência — só meta.
E o poder público assiste tudo com a serenidade de quem finge surpresa. Não regula, não educa, não protege. Deixa o cidadão aprender finanças do jeito mais cruel: pelo CPF negativado. Depois aparece alguém dizendo que o problema é “falta de educação financeira”, como se fosse razoável jogar gasolina num incêndio e culpar o fósforo.
Enquanto isso, quase metade da população adulta está inadimplente. A recuperação de crédito cai. O sujeito demora anos para limpar o nome — quando consegue. E quem paga a conta? O pequeno comércio, o sistema produtivo, a economia real. Mas, claro, a propaganda continua dizendo que está tudo sob controle.
Talvez esteja mesmo. Sob controle de quem lucra com o erro alheio.
O crédito fácil virou armadilha elegante. Não grita, não ameaça — seduz. E quando o tombo vem, ninguém assume a paternidade. Só sobra o cidadão, sozinho, olhando para o aplicativo que ontem o chamava de cliente premium e hoje o trata como risco estatístico.
No Brasil, a inadimplência não é acidente. É projeto mal regulado. E cartão demais, sem critério, dá nisso: um país passando o limite — moral, econômico e social.
Gregório José
Jornalista, filósofo e Pós-Graduado em Ciências Políticas
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