Amor e fidelidade na vida canina
Argos, da Odisseia (VIII ou VII a.C.), e Baleia, do Vidas Secas (1938), ainda que em narrativas distintas, trazem a presença dos animais de estimação e sua função nas circunstâncias humanas. Ambos os animais destilam comoções singulares da história dos homens mergulhados no plano real e simbólico da relação tempo-espaço. Além disso, o movimento canino cristaliza os incidentes frágeis e comove a experiência do inexorável futuro, uma vez que amor e fidelidade são intrínsecos à alma desses animais e integra novos rumos diante do quadro da limitação do sujeito. Regresso e progresso organizam o método identitário, ou seja, autonomia do ser histórico na estrada da vida.
O isolamento relativo de Odisseu realiza um interstício, ao relegar a vida familiar e tramitar a concretização dos ideais propostos. Convém ressaltar que Argos era um cão renomado pela força e velocidade, de sorte que o animal assumiu participação importante na vida do personagem Odisseu. Com efeito, a disparidade cronotópica entre os seres tece o clímax mitológico: o animal é leal e permanece na história contínua do “já vivido”; ao passo que Odisseu ausenta-se do lar e ganha novas perspectivas em suas empreitadas. Passados os 20 anos, Odisseu retorna a sua casa e, ao ver Argos, percebe que o cachorro reconheceu o herói, porém o animal só conseguiu movimentar os ouvidos e a cauda e sem a possibilidade de levantar-se, para receber Odisseu.
Na esteira do futuro, está a cachorra Baleia. Acompanhando a família de Fabiano, na narrativa de Graciliano Ramos, o animal foge da seca e da fome. Baleia figura a esperança do progresso, em razão de concretizar os sonhos e a valorização da existência. Concomitantemente, o ato enfermiço (raiva – hidrofobia) disputa com a sobrevivência, na famosa frase: “quem viver verá”. Trata-se de uma cachorra humana em torno das peripécias no contexto, cujo pano de fundo é fugir da seca nordestina. O ponto ápice está na morte de Baleia, quando Fabiano buscou uma espingarda de pederneira – “A carga alcançou os quartos de Baleia, que se pôs latir desesperadamente”. Diante do quadro mortífero, assinala-se a presença onírica – Baleia sonha com o mundo contendo bastantes roedores, junto à felicidade da família de Fabiano.
Os deslocamentos caninos moldam a subordinação animalesca em meio à difusão da personalidade humana. O silêncio dos cachorros, no âmbito da espera, produz imagens alucinatórias: Argos (na visão do regresso de Odisseu) e Baleia (na produção onírica), com o objetivo de elucidar o indizível. Em comum, os dois animais vivem a expectativa pelos olhos de contemplação e lutam pela tarefa de acompanhar seus donos. Tempo e espaço continuam aniquiladores do convívio, que já não se fixa, fisicamente, todavia representam a materialização do retrato por sentimentos perenes. Os modos de expressão de Argos e Baleia exaltam as consequências impactantes dos animais na vida humana, pois expõem imagens simples e frágeis e são capazes de quebrantar o coração.
O quebrantamento do coração traz os influxos caninos e confere à consciência o viés autorreferente, porquanto as relações conflitantes são passíveis de várias concepções. Argos morre à espera do dono; enquanto Baleia é sacrificada pelo próprio dono, na perspectiva de pôr fim ao sofrimento implacável. As reflexões a respeito da presença dos animais compartilham o sentimento de grandeza, partindo da ideia de seres dependentes. Na verdade, a estimação revela o quanto os humanos (re)conhecem o amor e a fidelidade em pequenos latidos e contínuos gracejos. Machado de Assis, no conto “Primas de Sapucaia” (1884), afirmou: “Felizes são os cães, que, pelo faro, descobrem os amigos”.
Imagem: Ulisses e Argos (1890), de Briton Rivière
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