Advogados às nove da manhã

O fórum está em recesso, ao menos oficialmente. Os processos dormem, os prazos descansam e a advocacia, em tese, poderia fazer o mesmo. Ainda assim, às nove da manhã deste 2 de janeiro, cheguei ao escritório, não para cumprir prazo, nem para audiência ou alguma urgência. Cheguei porque advogados fazem isso, leem e-mails, respondem mensagens de clientes, adiantam petições ou organizam a administração do escritório, honorários, boletos...

O curioso é que não cheguei sozinho. Exatamente no mesmo horário, outros três advogados chegaram à escada do edifício e também foram para suas salas. Nada combinado, apenas quatro profissionais, em pleno recesso, tomando a mesma decisão silenciosa: vir ao escritório, mas não cedo demais, afinal, estamos de férias, mas também não dá para simplesmente não vir.

Cada um daqueles colegas certamente veio por um motivo distinto: responder e-mails, organizar processos, atender alguém “rapidinho”, adiantar algo para o dia 21, quando os prazos voltam como uma maré inevitável. Motivos diferentes, rotina idêntica.

Nenhum dos quatro chegou às sete da manhã. Pareceria um desrespeito às férias. Mas também não deixamos de ir. A culpa profissional não permitiria. Chegamos às nove, esse horário intermediário, quase um acordo tácito entre o descanso e a responsabilidade. Como se todos tivéssemos pensado a mesma coisa, ao mesmo tempo, em casas diferentes. Dá até para imaginá-los no dia 1°, durante as festividades de ano novo pensando igual a mim: “amanhã vou ao escritório para ...”.

É nesse tipo de cena simples do cotidiano que a advocacia se revela, não só como profissão, mas como um modo de vida permanente.

A cena me fez lembrar Bernardino Ramazzini, o médico que, lá no século XVII, no livro “As doenças dos trabalhadores”, observava como o ofício não ficava restrito ao ambiente de trabalho: ele moldava o corpo, os hábitos, as doenças, a rotina, a própria forma de existir. O trabalho entrava na carne.

Talvez, se Ramazzini tivesse conhecido os advogados modernos, tivesse escrito algo sobre essa inquietação específica: a incapacidade de desligar completamente, mesmo quando não há prazo, mesmo quando a lei concede descanso. Não adoecemos apenas das costas ou da visão; adoecemos de vigilância constante, de uma sensação difusa de que sempre há algo a ser feito.

Naquele 2 de janeiro, quatro advogados tentaram não ser advogados, tentaram descansar, mas a advocacia, discretamente, veio junto. Não bateu à porta — já tinha a chave. E às nove da manhã, como quem respeita as férias, mas não confia inteiramente nelas, quatro escritórios foram abertos. Feliz ano novo!

Autor

Evandro Oliveira Tinti
Advogado, especialista em Direito e Processo do Trabalho pela EPD, mestrando em Direito e Gestão de Conflitos pela Uniara e coordenador da comissão de Direito do Trabalho da OAB de Catanduva, e articulista de O Regional