A tecnologia insuperável: o professor
Havia dias em que a sala de aula deixava de ser sala e se tornava travessia. Lembro-me da encenação do Auto da Barca do Inferno: cadeiras arrastadas e corações acelerados. Todavia, não era apenas teatro. Era condução, mediação e presença de um professor que transformava texto em experiência viva. O fidalgo arrogante surgia na figura de quem hoje se esconde atrás de títulos; o corrupto encontrava ecos em rostos conhecidos; o religioso, o poderoso, o comum, todos ganhavam corpo na leitura crítica dos alunos. Eles não decoravam falas: interpretavam o mundo.
Em outro momento, no projeto “Quem é o rei?”, o intervalo deixava de ser pausa e se tornava encontro. Livros espalhados, um pequeno palco, e, de repente, alguém tomava a capa, a coroa e lia poemas, crônicas ou contos. Havia ali intencionalidade pedagógica, escuta e incentivo. E não foram poucos os momentos; vi Navio Negreiro ser encenado por corpos que, ao simularem correntes, compreendiam que certas prisões ainda persistem. Vi Morte e Vida Severina atravessar a sala com sua dureza com uma aluna com lenço na cabeça, pés no chão e voz firme: “Vou dizer todas as coisas que sei de meu caminhar.” E o Memórias Póstumas de Brás Cubas se materializando na sala? Alunos desvendando as hipocrisias do século XIX.
Nesse mesmo percurso de experiências, como se não bastassem essas vivências, um dia, quando adentrei a sala, como um portal, o cenário era medieval. O violão, sons suaves, alunos trovadores, cantavam as cantigas produzidas por eles. Queria morar naquele cenário, naqueles sorrisos, nas melodias. Alunos que reconheciam, na literatura, não apenas personagens, mas a própria realidade e, ao vivê-la, a consciência se aquecia. Mas também houve um tempo em que o pátio da escola se transmutava em Tribunal do Júri: Capitu traiu Bentinho? Alunos se agigantando, com papéis nas mãos, após estudo minucioso para fundamentação. Depoimentos, interrogatórios, debates, votação, jurados e sentença. Um cenário que trazia a poder da argumentação.
Diante dessas memórias, o que a figura de um fidalgo para compreender o poder, o jovem que veste a coroa e descobre a própria voz, os corpos que encenam correntes para entender a liberdade, as vozes que percebem sua força, têm em comum? O professor com a batuta orquestrando o conhecimento. Essas experiências insistem em nos lembrar que, por mais que a tecnologia avance e os sistemas se sofistiquem, nenhuma inovação substituirá a potência de um professor que media, provoca, escuta e sustenta. Porque, no fim, não é a tecnologia que forma. É o Professor. E é por meio dele que a educação deixa de ser instrução e se torna transformação social.
Letícia Cabreira
Educadora da UMA Educação
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