A penalização da solidariedade

A situação dos moradores de rua em é um tema que demanda atenção e ações concretas por parte do poder público. Recentemente, um projeto de lei, na capital de São Paulo, que previa multas para quem ajudasse moradores de rua sem seguir determinados requisitos gerou grande controvérsia. Esse episódio traz à tona a urgente necessidade de políticas públicas que realmente ajudem, e não dificultem, a vida dessas pessoas vulneráveis.

É fundamental compreender que a população em situação de rua é extremamente diversa e enfrenta desafios complexos que vão além da falta de moradia. Entre esses desafios estão a falta de acesso a serviços de saúde, educação, emprego e apoio psicológico. Portanto, políticas públicas eficazes devem ser abrangentes, multidimensionais e voltadas para a inclusão social. 

Primeiramente, é essencial investir em programas de habitação que ofereçam soluções de moradia digna. A construção de abrigos temporários é uma medida paliativa; o foco deve ser em programas de moradia permanente que integrem essas pessoas de volta à sociedade.

Além da habitação, o acesso à saúde é um pilar fundamental. Muitos moradores de rua sofrem de problemas de saúde física e mental que são exacerbados pelas condições de vida nas ruas. A criação de unidades móveis de saúde e a integração de serviços de saúde mental em programas de assistência social são essenciais para atender essas necessidades. É crucial que esses serviços sejam de fácil acesso e desenhados para atender as especificidades dessa população.

A educação e a capacitação profissional também são vitais. Muitos moradores de rua possuem habilidades e experiências que podem ser valiosas no mercado de trabalho, mas necessitam de oportunidades para desenvolver novas competências e se reintegrar economicamente. Programas de capacitação, aliados a iniciativas de emprego inclusivo, podem proporcionar meios sustentáveis para que essas pessoas retomem o controle de suas vidas.

A assistência social precisa ser reforçada com equipes multidisciplinares que atuem diretamente nas ruas. Essas equipes devem ser treinadas para abordar os moradores de rua com respeito e dignidade, oferecendo suporte contínuo e personalizado. O acompanhamento dessas pessoas deve ser feito de maneira holística, considerando aspectos emocionais, sociais e econômicos.

A participação da sociedade civil é outro componente essencial. A colaboração entre o poder público e organizações não governamentais, instituições religiosas e grupos de voluntários pode ampliar o alcance e a eficácia das ações. Campanhas de conscientização podem educar a população sobre como ajudar de maneira responsável e eficaz, promovendo uma cultura de solidariedade e empatia.

Também é importante que políticas públicas sejam formuladas com base em dados e evidências. A coleta de informações precisas sobre a população em situação de rua permite o desenvolvimento de estratégias mais direcionadas e eficazes. Além disso, a transparência e a prestação de contas sobre as ações implementadas são fundamentais para garantir a confiança da sociedade e a continuidade das iniciativas.

A recente suspensão do projeto de lei que previa multas para quem ajudasse moradores de rua sem seguir requisitos específicos foi um passo necessário, mas não suficiente. É preciso um compromisso contínuo e aprofundado com a criação de políticas públicas que realmente façam a diferença. Em vez de penalizar a solidariedade, o foco deve estar em fortalecer e expandir os mecanismos de apoio e inclusão.

Em conclusão, a complexidade da questão dos moradores de rua exige soluções igualmente complexas e integradas. Políticas públicas eficazes devem ser inclusivas, participativas e baseadas em uma compreensão profunda das necessidades dessas pessoas. Somente assim poderemos construir uma sociedade mais justa e solidária, onde todos tenham a oportunidade de viver com dignidade e esperança.

Autor

Jaquelini Cristina de Godeis
Advogada. Ex-Assistente Especial da Assembleia Legislativa de São Paulo. Especializada em Direito de Família e Sucessões. Pós-Graduanda em Direito Contratual pela PUC-SP e Mestranda em Direito Público.