A Noiva!, ou como Frankenstein criou a Mulher

Em pleno Dia da Mulher, nada mais adequado do que comentar sobre um filme em que um Criador dá Vida à Mulher: no caso, o dr. Frankenstein à Noiva de Frankenstein (sempre lembrando que Frankenstein é o cientista, não o monstro da história original. Também é recente a versão de Frankenstein de Guillermo del Toro, na Netflix, muito próxima ao livro da escritora Mary Shelley, autora do livro de 1818.                                                                                                                          

Em A Noiva!, agora exibido nos cinemas, a diretora Maggie Gyllenhaal, que atuou como atriz em filmes importantes como Batman – O Cavaleiro das Trevas, dirige seu segundo filme e oferece um conto gótico estilizado que mistura romance trágico, crítica social e atmosfera de fábula sombria. Mais do que revisitar os monstros, o filme desloca o eixo da narrativa para aquela que, durante décadas, foi apenas uma nota de rodapé na história: a Noiva.

A obra dialoga diretamente com A Noiva de Frankenstein, clássico de 1935 dirigido por James Whale. Nele, a personagem criada para ser companheira do monstro aparece apenas no final da trama e rejeita a criatura imediatamente, uma das cenas mais famosas da história do terror.

Gyllenhaal parte daí, mas vira o conceito do avesso. Em vez de um epílogo dramático, a criação da Noiva torna-se o ponto de partida da história. Ambientado na Chicago dos anos 1930, o longa imagina o que aconteceria se essa criatura recém-nascida tivesse voz própria, e recusasse o destino que lhe foi imposto.

Na trama, o monstro interpretado por Christian Bale (que já foi o Batman, junto com a diretora) procura a ajuda de cientistas para criar uma companheira. O experimento resulta em uma mulher ressuscitada, vivida por Jessie Buckley.

O encontro entre os dois, porém, não produz o romance esperado.

A Noiva desperta para o mundo como uma figura imprevisível, inquieta e fascinada pela vida urbana ao redor. À medida que descobre sua autonomia, ela passa a desafiar tanto seu criador quanto o próprio monstro.

Um dos aspectos mais marcantes do filme é sua estética visual. Gyllenhaal constrói uma Chicago estilizada, onde a atmosfera de horror clássico encontra elementos de cinema noir e um toque quase punk. Nesse ponto, lembra um pouco com o visutal “steempunk” de Pobres Criaturas, que explora uma variação da mesma obra.

A direção aposta em cenários elaborados, iluminação expressionista (como nos filmes de Whale) e figurinos que lembram o cinema de terror da Universal dos anos 1930, mas reinterpretados com um olhar contemporâneo.

A Noiva! tem um grande elenco: Annette Bening, Peter Sarsgaard e Penelope Cruz, entre outros. Como no romance de Shelley, o filme usa a ciência e o horror como metáforas, que ecoam a mais de há 200 anos, quando o livro foi escrito. 

Autor

Sid Castro
É escritor e colunista de O Regional.