A mudança é permanente

Quem você viu quando olhou no espelho hoje, pela manhã? Você. Mas, era o mesmo você, o seu eu, de ontem, anteontem, de 1 mês atrás, dois anos, uma década, o mesmo de uma hora, há pouco, o mesmo de agora quando você lê, acabou de ler, leu a palavra “agora”?

O tempo passa e nós passamos com ele, mudando. Mudamos como mudam as estações, em ciclos que vão e voltam como a terra em torno do sol, como as gerações de andorinhas que há milênios atravessam oceanos sempre em direção ao mesmo lugar, ao mesmo destino. Nós mudamos de idéia, de estado estomacal, de tom de voz, de tamanho de roupa, de ideologia, de gosto musical, de crença religiosa, de amores, de dores...

Mudamos tanto que é preciso perguntar: será que, no fundo, nós mudamos mesmo, ou apenas variamos sobre o mesmo tema, como na música de Brahms ou dos Engenheiros do Hawaii? Leia estes versos (“Eu tenho os meus problemas, você tem as suas variações de um mesmo tema, ateus procurando Deus”) ao som das Variações Opus 56a.

A questão é, repito: será que mudamos, de fato, em essência? Ou só nos revolvemos dentro de uma paleta de possibilidades anteriormente já providenciadas pelo contexto social, pela genética, por Deus? Se você prestar atenção, talvez descubra que há uma linha única costurando todas as rotas pelas quais você caminhou, ainda que de um pólo a outro, ainda que superficialmente muito díspares, ainda que, sob um ponto de vista superficial, tudo parecesse muito diferente quando foi, na verdade, tudo muito igual.

Contemple a situação dos fanáticos, por exemplo. Cito-os porque neles este estado de suposta metamorfose é ou parece ser mais óbvio. Alguns nascem fanaticamente crentes ou ateus, estudam ou traumatizam-se e tornam-se fanaticamente ateus ou crentes; tão dogmáticos e severos tanto em um estado quanto no outro. Despeja-se o fanatismo em obsessões várias: futebol, política, sexo, bebida, luta, apostas, esportes, colecionismo, etc, etc, etc. Será que a pessoa mudou muito ou... não mudou?

Provavelmente, a resposta é não: a pessoa não mudou ou, se mudou, mudou muito pouco. O eu profundo manteve-se o mesmo, intocável como uma estátua de sal no vácuo. Só se mudaram as cascas, as carapaças, as carcaças. Poucos são aqueles que, de fato, mudam. Porque só muda quem está consciente do processo que leva A e B a X e Z passo a passo, degrau por degrau, gota a gota, grão por grão. Os caminhos da mudança verdadeira costumam ser ascendentes na qualidade: são progresso do pior ao melhor. O contrário, do melhor ao pior, parece ser tão somente um regresso à natureza real do sujeito, que a ocultava à força de pressões e repressões psicológicas de todo tipo.

E agora, você é o mesmo desde quando começou a leitura destas minhas mau traçadas e até, dir-se-ia-, pedantes linhas? Você é o mesmo? À noite, quando entrar no banheiro, será o mesmo você ao olhar o espelho? Amanhã, quando acordar, você será o mesmo? Será que a mudança é permanente? Será que a permanência consiste em mudar? Será que, além da conversão profunda (a metanoia santificadora), podemos mudar por nós mesmos, na força das nossas convicções, objeções, orações, contrições, ações, omissões?

Dois grandes homens pronunciaram sentenças que, apesar de parecerem contraditórias, fundem tudo aquilo que eu porcamente tentei refletir até aqui. Heráclito nos diz: “Não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio porque as águas se renovam a cada instante.” Salomão nos diz: “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.”

É isto. Bom dia!

Autor

Dayher Giménez
Advogado e Professor