A meta deve ser zero

Os números que chegam à nossa redação sobre os crimes registrados em Catanduva entre 2024 e 2025 trazem uma dualidade que exige reflexão. A redução de 15% nos casos de estupro — caindo de 38 para 32 registros — é um dado que, em tese, deveria ser comemorado como um sinal de que as campanhas de conscientização e as ações de segurança estão produzindo efeitos. No entanto, ao olharmos para o número absoluto, a celebração se torna quase hipocrisia. Trinta e dois casos de violência sexual registrados em um ano é um índice que deve causar, acima de tudo, revolta e um senso de urgência. Cada número representa uma vida profundamente marcada, uma história de dor e uma violação de dignidade que jamais deveria ter ocorrido em nossa comunidade. Precisamos lembrar, ainda, que as estatísticas criminais são apenas a ponta do iceberg. O estupro, talvez mais do que qualquer outro crime, sofre com a subnotificação. Muitas vítimas silenciadas pelo medo, pela vergonha ou pela descrença na eficácia da justiça não chegam às delegacias. Portanto, a redução observada pode ser até reflexo de uma melhora marginal no registro, e não uma real diminuição da incidência da violência. O caminho para a verdadeira segurança não se pavimenta apenas com a queda de um percentual. Ele exige um compromisso comunitário inegociável: fortalecer as redes de apoio psicossocial às vítimas, garantir atendimento humanizado e especializado nas instituições de saúde e segurança, e promover educação que desconstrua a cultura do abuso desde a infância. A meta não pode ser apenas reduzir os 38 ou os 32; a meta deve ser zero. Enquanto houver uma única vítima em nossa cidade, o trabalho de prevenção e amparo deve ser intensificado. A estatística melhorou, mas o combate à violência sexual em Catanduva está longe de terminar.

Autor

Da Redação
Direto da redação do Jornal O Regional.