A Mega da Virada não veio, e agora?

O sorteio da Mega da Virada passou, os números foram anunciados e, para a imensa maioria da população, o despertador da realidade tocou mais forte no dia seguinte.

A expectativa do bilhete premiado, que resolveria todos os problemas de uma vez só, deu lugar ao vazio, revelando algo profundo sobre a nossa relação com o dinheiro: o brasileiro não quer só enriquecer, ele quer enriquecer rápido.

Queremos ganhar muito, com pouco e, se possível, sem fazer força. Claro que a busca por conforto e gratificação imediata é inerente ao ser humano em qualquer lugar do mundo, mas, por aqui, esse desejo se misturou a carências históricas, desigualdades profundas e uma baixa educação financeira.

O resultado é uma cultura que, por décadas, vendeu a ideia de que o sucesso financeiro é sempre uma questão de sorte ou de acesso privilegiado, ignorando que, mesmo em um país com juros altos e boas opções seguras, o que mais se espalha são promessas milagrosas e golpes disfarçados de oportunidade.

Vivemos o que podemos chamar de fantasia do ticket dourado, em referência ao clássico "A Fantástica Fábrica de Chocolate", onde o bilhete é um símbolo mágico de transformação.

Na vida real, quando esse sonho é transportado para o universo das finanças, o custo costuma ser alto.

A Mega da Virada é apenas a face institucionalizada desse comportamento, pois, quando ela passa, o mercado se encarrega de oferecer novos tickets, como a ação do momento ou a criptomoeda revolucionária, alimentando um desejo profundo de resolver a vida de uma vez só.

O problema não está em querer mudar de vida, mas em acreditar que isso virá embalado como um presente com selo de urgência.

Nós frequentemente confundimos exceção com oportunidade, bastando um caso isolado de sucesso para que ignoremos o risco e o acaso.

Nesse momento, o indivíduo deixa de ser um investidor racional e passa a agir como um apostador, comprando um enredo emocional onde ele é o herói que vai dar a tacada da vida e chegar lá mais rápido do que todos os outros.

A grande armadilha está em acreditar que o sucesso financeiro é um caminho escondido, um segredo ou uma dica quente. O mercado está cheio de fabricantes de tickets que usam narrativas poderosas para oferecer atalhos irresistíveis, mas o verdadeiro bilhete não brilha; ele é feito de rotina, disciplina e escolhas conscientes.

Tanta gente prefere apostar do que construir porque apostar traz a adrenalina da possibilidade, enquanto construir traz o peso da constância. No entanto, a cultura do atalho não forma investidores, forma iludidos que perdem tempo, dinheiro e esperança.

Abandonar o autoengano e parar de romantizar a sorte como estratégia é o primeiro passo para proteger seus planos. Por isso, esse meu texto não é para matar seus sonhos. É para protegê-los. Porque sonhos não são acelerados por sorteios, eles ão sustentados por planejamento e consciência.

Luciano Claudino

Consultor financeiro

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Artigos de colaboradores e leitores de O Regional.