A essência: liberdade

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” 
 
Simone de Beauvoir 
 
 
A escritora, intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa Simone de Beauvoir escreveu com propriedade, dos anos 40 aos anos 70, sobre liberdade de ser e não se sujeitar à rótulos ou qualquer definição que nos limite. 

Comovente, divertida, realista, emocionante e impactante! Não é isso o que esperamos de uma apresentação artística? Não? Então, espera-se muito pouco. O que nós acreditamos é numa arte transformadora que possa tocar, fazer pensar e, acima de tudo, promover a sensação de liberdade, independente de idade, segmento ou qualquer outra coisa. 

'Trevor – o musical', uma adaptação para TV do espetáculo off-Broadway, foi inspirado no curta homônimo de 1994, vencedor do Oscar de 95. Está em cartaz no streaming Disney+ (https://www.disneyplus.com/pt-br/movies/trevor-o-musical/2ztZlmJG4KOZ). 

O curta foi inspirado na discussão que ocorreu na Rádio NPR, de Washington, Estados Unidos, sobre suicídio de jovens e como isso afeta a juventude LGBTQIA+. 

O musical conta a história de Trevor, um garoto de treze anos, e sua jornada angustiante de autodescoberta. Após enfrentar um incidente embaraçoso na sua escola, ele precisa reunir coragem para trilhar seu próprio caminho. Os pais passaram pelo processo comum de aceitação, como todas as famílias que vivem uma situação semelhante. Trevor sofre um doloroso calvário no meio escolar, onde passa a maior parte do seu tempo, enfrentando preconceitos e bullying.  

Qual seria o impacto hoje no Brasil de um musical como este, protagonizado por diversos jovens, falando abertamente sobre as fases da adolescência e os conflitos existenciais naturais a todas as gerações, em todos os tempos, no mundo todo, se há uma intolerância gritante e reinante, quase uma censura de uma parte significativa de nossa sociedade?

Um preconceito – e todo preconceito nasce da ignorância – tão cruel e que se manteve na surdina, abafado, adormecido e que teve seu ressurgimento em nossos dias a partir de um movimento agressivo e violento mesmo, que tem seu abastecimento diário e constante principalmente nas redes sociais onde todos se sentem no direito de escrever e compartilhar tudo, sem critérios, sem noção, sem humanidade.  

Ao longo de mais de trinta anos, lidando com crianças, jovens, educadores e pais, através do teatro, temos visto a diferença de mentes abertas e atualizadas – que respeitam acima de tudo a liberdade de ser e de sentir – daquelas que relutam em não enxergar a realidade, o que gera profundas feridas e mágoas, em filhos e pais, que não conseguem o mínimo de entendimento, diálogo e reflexão.  

O musical Trevor mostra de forma inteligente, sensível e divertida o quanto a Arte pode ser, além do entretimento e cultura, uma voz guia para o coração e para a percepção das diferenças e, acima de tudo, da aceitação da liberdade. 

Pais, assistam com seus filhos no final das férias; educadores, indiquem para seus alunos. E há diversos outros exemplos de filmes, livres, espetáculos, séries, enfim, um universo amplo para que o preconceito seja banido das nossas vidas, da nossa sociedade. Que a liberdade seja a nossa essência, a nossa substância, e que o preconceito jamais nos defina.

Autor

Drika Vieira e Carlinhos Rodrigues
Atores profissionais, dramaturgos, diretores, produtores de teatro e audiovisual, criadores da Cia da Casa Amarela e articulistas de O Regional.