A escola não vai resolver o que começa antes dela
Quando falamos de educação, ainda existe uma tendência de colocar o foco apenas no conteúdo, no método ou no desempenho. Mas o que tenho visto na prática é outra realidade. O que mais interfere no aprendizado hoje não está no material didático. Está no estado emocional do aluno.
Os números ajudam a entender o cenário. Um levantamento da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, divulgado em 2023, aponta que 2 em cada 3 estudantes da rede estadual relatam sintomas de ansiedade ou depressão. Isso não é pontual. É estrutural.
Ao mesmo tempo, dados da Organização Pan-Americana da Saúde mostram que 1 em cada 6 adolescentes apresenta algum transtorno mental, e que metade desses quadros começa antes dos 14 anos. Ou seja, muitos alunos já chegam à escola com dificuldades instaladas.
A partir daí, o que aparece é o sintoma mais visível: a falta de foco. Mas é importante entender que essa dificuldade não surge por desinteresse. Ela está ligada à forma como o cérebro está funcionando naquele momento. Um cérebro sobrecarregado, ansioso ou desorganizado não consegue sustentar atenção por muito tempo.
O ambiente atual contribui diretamente para isso. Existe excesso de estímulos, de informação e de cobrança. A criança sai da escola e continua exposta a telas, notificações e conteúdos rápidos. Não há tempo suficiente para processar o que foi aprendido.
A ansiedade entra como um fator central. Uma mente ansiosa não consegue permanecer presente. Ela antecipa, se dispersa e tenta lidar com várias demandas ao mesmo tempo.
O impacto disso é direto no desempenho escolar. Não se trata de capacidade intelectual. Trata-se de condição emocional. Outro ponto que precisa ser revisto é a forma como essas dificuldades ainda são interpretadas. É comum associar falta de foco à indisciplina ou falta de interesse. Esse tipo de leitura não resolve o problema e, muitas vezes, aumenta a frustração.
Como psicólogo e neuropsicólogo, vejo com frequência que, quando o emocional é ajustado, o desempenho acompanha. O aluno volta a conseguir se organizar, prestar atenção e acompanhar o conteúdo.
Mas isso exige mudança de olhar.
A escola tem um papel importante, mas ela não resolve sozinha o que começa antes dela. O aprendizado depende de uma base que vai além do conteúdo.
O ponto central não está apenas em como ensinamos, mas em como os alunos estão emocionalmente preparados para aprender. Sem essa base, o processo não se sustenta. E continuar tratando isso como exceção já não faz sentido diante do que os dados mostram.
Bruno Garibaldi
Psicólogo e neuropsicólogo
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