A casa bilionária

Há alguns dias me deparei com a notícia de que foi batido um novo recorde, com o maior valor de compra e venda de uma casa, pelo singelo valor de 1,8 bilhão de reais. Sei que a casa tem toda uma história, não sendo sequer a maior do mundo, mas seu luxo e tamanho são essenciais para se chegar a esse valor.

Não vou ficar fazendo comparativos, dizendo que com esse dinheiro daria para comprar milhares carros populares, ou centenas de casas normais, ou até dezenas de prédios comerciais.

Em qualquer perspectiva isso não faz sentido. Uma casa serve para que? Se for para dormir, uma cama basta. Se o comprador é um rico espaçoso, é só comprar uma cama maior.

Mas ele gosta de cinema em casa? Faça uma sala grande, com boas poltronas com sistema de massagem, com uma grande tv ou projetor, um frigobar, uma máquina de pipocas.

Quer uma piscina em casa? Uma academia? Um salão de festas? Tenha... e ainda assim, com tantos luxos, estaríamos longe desse valor, que chega a ser um despautério, uma ofensa para a humanidade, que ainda sequer consegue garantir o mínimo de dignidade para milhões de pessoas.

No fim das contas, só ocupamos uma cadeira para jantar, um pequeno espaço para dormir, um lugar no sofá, enfim, cerca de meio metro quadrado em qualquer lugar em que estivermos...

Deitar em uma cama gigante, em uma casa com dezenas de camas, não nos garante um sono de qualidade. Mesas gigantes, milhares de louças e talheres não garantem uma boa nutrição, assim como uma academia em casa não garante boa saúde, muito menos uma vida eterna.

Ao contrário, não é incomum vermos pessoas que constroem uma vida luxuosa, mas tão esbanjadora, que não conseguem tempo para usufruir nem 1% disso tudo, já que estão preocupadas em administrar tudo e ganhar ainda mais, vendo o dinheiro como um fim em si mesmo, confirmando a reflexão do filósofo Arthur Schopenhauer, que dizia que “A riqueza é como a água do mar, quanto mais a bebemos, mais sede sentimos”.

Então a única explicação é o sentimento de poder, de se diferenciar, de se sentir um ser humano “premium”, “vip”, um quase Deus que, no fim das contas, acabará sendo a pessoa mais rica do cemitério (expressão atribuída a Steve Jobs.

Acabando de ler tal notícia, desliguei a tela do celular e olhei à minha volta, minha cadeira simples, minha mesa idem, as paredes simples de minha pequena casa, minha garrafinha de água, que ganhei como brinde, minhas canetas igualmente ganhas como brinde, e pensei em como, no fundo, é a simplicidade que dá sentido à vida, pois, se resolvemos querer sempre o mais caro, buscar mais status, entramos em uma luta interminável e ingrata, que jamais terá fim.

Logo alguém compra uma casa por 1,9 bilhão de reais, e talvez aquele comprador ficará triste por ter apenas a segunda casa mais cara do mundo.

Enquanto eu, por aqui, ficando imensamente feliz tão somente por alguém falar que leu minha crônica, que gostou, ou que eu poderia ter feito melhor, que tem um errinho de português, e, na simplicidade da vida, batemos um bom papo, gargalhamos, vemos a vida passar, com nossos poucos reais na conta bancária.

Autor

Evandro Oliveira Tinti
Advogado, mestre em Direito e professor de Direito do Trabalho